Artigo — por Edu Feijó

Como identificar afinidade visual entre fotos feitas em lugares e momentos diferentes

A maior parte dos acervos fotográficos cresce organizada por contexto: uma pasta por viagem, por cliente, por data ou por projeto. Essa lógica funciona bem enquanto o volume é pequeno, mas começa a falhar quando o acervo se acumula ao longo dos anos. As imagens continuam existindo, mas deixam de se relacionar entre si de forma clara.

Foi a partir desse ponto que surgiu a necessidade de olhar para as fotos de outra maneira. Em vez de perguntar onde ou quando cada imagem foi feita, a pergunta passa a ser outra: o que existe de comum entre fotos que, à primeira vista, não têm nenhuma relação?

Neste artigo, uso como exemplo a coleção Presenças na Rua, construída a partir de imagens feitas ao longo de diferentes viagens. No meu caso, são fotos de rua em países distintos. Para outro fotógrafo, poderiam ser trabalhos comerciais, retratos de estúdio, ensaios ou qualquer outro conjunto acumulado ao longo do tempo. O tipo de fotografia muda, mas a lógica de organização pode ser a mesma.

A afinidade visual começa a aparecer quando o contexto deixa de ser o principal critério

A imagem abaixo foi feita em Jaisalmer, no deserto do Rajastão, na Índia. Uma mulher idosa ocupa o centro da cena, vestindo um véu vermelho intenso que contrasta com a parede clara ao fundo. O enquadramento é direto, sem elementos competindo pela atenção, e a presença dela organiza toda a leitura da imagem.

Mulher idosa com véu vermelho em rua de Jaisalmer

Mulher idosa com véu vermelho em rua de Jaisalmer, Índia.

Alguns anos depois, em Luang Prabang, no Laos, uma outra imagem aparece com uma estrutura muito próxima. Aqui, a mulher está sentada vendendo flores, cercada por pequenos objetos que ajudam a compor a cena. A luz é mais difusa, o ambiente é outro, mas novamente existe uma presença central que organiza o espaço ao redor.

Mulher vendendo flores em Luang Prabang

Mulher vendendo flores em Luang Prabang, Laos.

As duas fotos foram feitas em países diferentes, em anos diferentes e em contextos completamente distintos. Ainda assim, existe uma afinidade clara: ambas são construídas a partir de uma presença humana isolada que estrutura a imagem. Não é apenas o tema que conecta — é principalmente a forma como a cena é organizada.

A repetição não está no assunto, mas na forma de olhar

Em outra situação, no Laos, uma vendedora se desloca com um triciclo carregado. A imagem traz movimento, mas ainda assim mantém uma organização semelhante: a figura humana continua sendo o eixo principal, com o entorno funcionando como suporte para essa presença.

Vendedora com triciclo em Luang Prabang

Vendedora com triciclo em Luang Prabang, Laos.

No Vietnã, em um mercado de rua em Hoi An, a lógica se repete de outra forma. A mulher com chapéu cônico não está em movimento evidente, mas a cena mantém o mesmo tipo de construção: uma presença clara, integrada ao espaço, com elementos ao redor que reforçam — e não competem — com o centro da imagem.

Mulher com chapéu cônico em mercado de Hoi An

Mulher com chapéu cônico em mercado de Hoi An, Vietnã.

Nesse ponto, começa a ficar mais evidente que a afinidade visual não depende de repetir o mesmo tipo de cena. O que se repete é o modo de construir a imagem: a relação entre figura e espaço, a forma de isolar o sujeito e o equilíbrio entre presença humana e ambiente.

A geografia muda, mas a lógica visual permanece

Essa lógica também aparece fora da Ásia. Em uma cidade andina no Equador, uma mulher com chapéu verde atravessa a cena com uma presença marcante. A composição continua simples, com poucos elementos e uma leitura direta, onde a figura humana define o ritmo da imagem.

Mulher com chapéu verde em cidade andina do Equador

Mulher com chapéu verde em cidade andina do Equador.

Em Jerusalém, em um contexto completamente diferente, um homem com chapéu ocupa a cena de forma semelhante. A arquitetura ao fundo muda, a cultura muda, mas a construção da imagem permanece próxima: uma presença isolada, inserida no espaço de forma clara e legível.

Homem com chapéu na Cidade Velha de Jerusalém

Homem com chapéu na Cidade Velha de Jerusalém.

Quando essas imagens passam a ser vistas em conjunto, a geografia deixa de ser o elemento principal. O que aparece é uma recorrência visual que atravessa países, culturas e anos de produção.

Uma mesma foto pode participar de diferentes leituras do acervo

Quando o acervo começa a ser organizado por afinidade visual, uma mudança importante aparece: as imagens deixam de estar presas a um único agrupamento.

Em uma estrutura baseada em pastas, cada foto costuma precisar de um destino fixo. Aqui, não. A mesma imagem pode participar de diferentes leituras, dependendo do que está sendo observado nela.

A foto abaixo, feita em Ubud, em Bali, mostra um agricultor caminhando à beira de um arrozal alagado, carregando uma escada de bambu. À primeira vista, ela parece se afastar da lógica mais direta de Presenças na Rua, porque o espaço natural tem muito peso e a paisagem ocupa uma parte importante do quadro.

Agricultor caminha à beira do arrozal alagado em Ubud carregando uma escada de bambu

Agricultor caminha à beira do arrozal alagado em Ubud carregando uma escada de bambu, Bali, Indonésia.

Ainda assim, ela faz sentido nesta coleção porque a figura humana continua sendo decisiva para a leitura. O corpo em deslocamento, a escada apoiada no ombro e a presença isolada no campo visual organizam a imagem de um modo muito próximo ao que acontece em outras fotos do conjunto: não é apenas uma paisagem com alguém dentro, mas uma cena estruturada pela presença.

Ao mesmo tempo, essa mesma imagem também pode ser lida por outra chave. O reflexo da água, a repetição das linhas de plantio e a relação entre figura e superfície fazem com que ela também se aproxime de coleções como Onde o Verde Encontra a Água e Quando a Paisagem se Duplica.

Nesse caso, o que muda não é a foto, mas o tipo de leitura que se projeta sobre ela. Em uma coleção, a imagem entra pela presença humana em movimento. Em outra, pela forma como o espaço se organiza em camadas e reflexos.

É isso que permite que o acervo deixe de ser uma estrutura rígida e passe a funcionar como um sistema de leitura. As imagens não precisam “escolher” um único lugar definitivo. Elas podem revelar relações diferentes conforme o conjunto amadurece e novas afinidades se tornam visíveis.

Quando o acervo ganha estrutura, o conjunto aparece

Esse tipo de organização muda a relação com o acervo. As fotos deixam de ser apenas registros isolados e passam a formar conjuntos coerentes, onde cada imagem reforça a leitura das outras. O trabalho deixa de depender da memória e passa a se apoiar em uma estrutura que permite revisitar e compreender o que já foi produzido.

Isso não se limita a fotografia de viagem. Em outros contextos, a afinidade pode aparecer pela luz, pela composição, pelo tipo de enquadramento, pelo uso de profundidade ou por qualquer outro elemento recorrente no olhar do fotógrafo. O que muda é a superfície. A lógica de leitura permanece.

Foi a partir dessa leitura que o Recura foi desenvolvido

O Recura nasce dessa necessidade de tornar visível o que já existe no acervo. Em vez de focar apenas na organização dos arquivos, o processo parte da Leitura Visual: identificar padrões, recorrências e relações que não aparecem quando as imagens estão separadas por contexto.

A partir dessa leitura, o acervo começa a ganhar estrutura em forma de coleções, caminhos de navegação e textos que ajudam a compreender o conjunto. Não é uma forma de guardar melhor as fotos, mas de enxergar melhor o próprio trabalho.